Examinando a injustiça ambiental a partir da contaminação do ar e de inundações nos arredores da Companhia Siderúrgica do Atlântico/Ternium, às margens da Baía de Sepetiba (Rio de Janeiro)

Thiago Roniere Rebouças Tavares

Resumo

Instalada desde a década passada às margens da Baía de Sepetiba, mais precisamente no bairro de Santa Cruz (Rio de Janeiro), a Companhia Siderúrgica do Atlântico/CSA tem sido alvo de diversas críticas pelos impactos negativos causados no ambiente local. Dentre outras investigações, em nossa pesquisa de doutorado, nos propomos a examinar, a partir de dois eventos caracterizados como desastres ocorridos no bairro de Santa Cruz, como estes são promotores da situação de injustiça ambiental resultante da origem social do fenômeno. Resumidamente, os dois eventos são: (i) as inundações na Comunidade de São Fernando, decorrentes de alterações hidráulicas para construção da CSA, provocando consequentemente, o transbordamento de águas residuais no local (FIOCRUZ, 2014); (ii) a “chuva de prata”, fenômeno assim chamado pelos moradores, ocasionado pelo armazenamento contínuo do ferro gusa em poços ao ar livre (PACS, 2012). Assim, quando investigamos os efeitos nocivos que a implementação da CSA têm provocado no bairro de Santa Cruz, corroboramos os exames de autores como M. Lopes de Souza e H. Acselrad quanto à perspectiva analítica da categoria justiça ambiental, por esta nos permitir reconhecer que existe uma lógica política que distribui os impactos negativos gerados à sombra do discurso do ‘desenvolvimento econômico’ sobre os grupos que têm menos poder, indicando que há uma desigualdade ambiental expressa entre outras desigualdades historicamente recaídas sobre alguns grupos.

Palavras-chave

injustiça ambiental; desastres “naturais”; contaminação; vulnerabilidade social; impactos negativos.

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