O Pátio dos Milagres
cidade, alteridade e poder no séc. XIX
DOI:
https://doi.org/10.48075/hddy2w91Resumen
Este artigo analisa o romance histórico O Corcunda de Notre-Dame (1831), de Victor
Hugo, tomando como objeto a representação da região do Pátio dos Milagres. O objetivo é
compreender como a obra participa da construção de imagens de alteridade na modernidade
europeia, evidenciando as relações entre literatura, história e poder. Inserida em um cenário de
intensas transformações políticas e culturais da França, a narrativa é concebida como organismo,
que absorve e reorganiza tensões sociais, produzindo sentidos sobre identidade nacional. O
estudo desenvolve uma análise discursiva de trechos do romance, articulando o conceito de
modernidade (Harvey, 2015) à noção de literatura como prática social, conforme Antonio Candido
(2006), em diálogo com a categoria de orientalismo de Edward Said (2007). A análise sugere que
o Pátio dos Milagres não opera apenas como cenário, mas como dispositivo narrativo que
organiza fronteiras entre o “povo” e o “Outro”, por meio de um repertório lexical marcado por
indeterminação, animalização e moralização da pobreza, frequentemente associado às
populações romani. Ao cruzar a historiografia sobre esses grupos com a tradição da literatura de
mendicância, argumenta-se que o romance participa da pedagogia simbólica da modernidade ao
condensar, neste espaço, as ambivalências do Romantismo diante da cidade moderna. Embora a
obra critique a perda da solidariedade social e abandono do patrimônio, também reproduz
estigmas e reforça de hierarquias simbólicas. Conclui-se que o espaço literário atua como
mediador entre estética e poder, contribuindo para a cristalização de imagens que moldaram e
persistem na memória social.
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