Os sentidos e o sentimento da história em O outro amor do Dr. Paulo, de Gilberto Freyre
DOI:
https://doi.org/10.48075/gtff4s72Resumen
O artigo busca compreender as estratégias discursivas e, neste particular caso, literárias, de Gilberto Freyre na construção do tempo histórico de O outro amor do Dr. Paulo (1977), sequência de sua duologia ficcional iniciada em 1964. Para tanto, busca-se orientar uma leitura do objeto a partir do trabalho de Reinhart Koselleck, Futuro Passado (2006), articulando as noções de “espaço de experiência”, “horizonte de expectativas”, bem como a interpelação desses conceitos a partir da narração e/ou descrição dos fatos e estruturas históricas. Nesse contexto, o romance de Freyre é interpretado como um caso exemplar da incorporação crítica do material histórico na ficção. Sequência de Dona Sinhá e o Filho Padre (1964), O outro amor intensifica o jogo entre realidade e ficção ao apresentar o personagem Paulo Tavares como figura supostamente histórica, reconstruída por meio de depoimentos e documentos. Assim, pretende-se esclarecer como o tempo histórico desenvolvido por Freyre faz ressaltar, para além de uma discussão sobre o decadentismo finissecular oitocentista, em contraposição a uma modernidade tropical à brasileira, um enriquecimento proposital desse mesmo tempo histórico por meio da diluição entre as fronteiras do real e do ficcional. Argumenta-se, afinal, que essas representações não funcionam apenas como ambientação histórica, mas como mecanismo de construção de um sentimento do tempo histórico, no qual o passado oitocentista é reinterpretado retrospectivamente por um narrador situado nas primeiras décadas do século XX.
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