DE VOLTA PARA OS ANOS INCRÍVEIS: O DEBATE POLÍTICO COMO HERANÇA DO DISCURSO DOS MOVIMENTOS ARTÍSTICOS DOS ANOS 60 NO BRASIL

José Orlando Cardoso Monte Jr.

Resumo

O presente artigo tem como ponto de partida uma discussão do ensaio “A participação engajada no calor dos anos 60”, de Heloisa Buarque de Hollanda. Destacamos a separação que a escritora propõe entre os discursos de diferentes grupos ideológicos no efervescente contexto social, político e cultural da década de 1960 no Brasil. Os grupos discutidos no interior da intersecção entre o texto de Hollanda e o nosso recorte temático são dois: aquele abrangido pela perspectiva populista do Centro Popular de Cultura (o CPC) e os grupos artísticos de vanguarda brasileiros, representados pelo movimento concretista e pelos poetas desenvolvedores e praticantes do poema-práxis e do poema-processo. Abordamos os aspectos ideológicos imbricados nos discursos revolucionários desses grupos, tanto em termos das oposições que esses discursos trazem à tona quanto em relação ao terreno comum sobre o qual ambos constroem as bases de seu engajamento político. Em seguida, tratamos de como o poeta Ferreira Gullar posicionou-se nessa luta de ideais para, finalmente, assumir a postura que julgou ideal para a defesa do engajamento artístico. Para tanto, propomos uma leitura do poema narrativo “João Boa-Morte, cabra marcado para morrer”, publicado em 1962, no contexto da chamada literatura de cordel. O poema, pensamos, pode ser apontado como exemplo de que a arte modernista, a despeito do estranhamento que possa impor à sua apreciação pelo povo, não está excluída do debate político forjado por grupos ideológicos de orientação popular, não estando a poesia em posição oposta à de outras formas de expressão artística supostamente melhor aplicáveis ao engajamento, como argumentou Jean-Paul Sartre.

Palavras-chave

anos 60; discurso político; poesia

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