A liminaridade ficcional de textos britânicos publicados em periódicos oitocentistas

Maria Eulália Ramicelli

Resumo

No século XIX, os periódicos possuíam cunho civilizatório, por divulgarem conhecimento e entretenimento atualizados e diversificados ao crescente público leitor, em um contexto burguês que valorizava informação transmitida de forma palatável. No acanhado meio sócio-cultural brasileiro, especialmente após a abolição da censura à imprensa em 1821, o contínuo esforço para a produção de periódicos contou com a freqüente tradução de matéria estrangeira com o intuito de promover nosso desenvolvimento intelectual. Assim, periódicos fluminenses dos anos 1830 e 1840 publicaram a tradução de várias narrativas britânicas, atendendo ao grande interesse dos brasileiros pela Grã-Bretanha, potência européia que tinha fortes vínculos político-econômico-culturais com o Brasil. Dentre essas narrativas, algumas se caracterizam por seu caráter limítrofe entre o discurso ficcional, o histórico e o crítico-ensaístico. Tal ambivalência discursiva coaduna-se com a razoável permeabilidade entre as seções do periódico, tendo sido acentuada no processo tradutório, pois a tradução brasileira adveio da versão francesa, publicada na parisiense Revue Britannique, que apresenta consideráveis alterações na estrutura formal das narrativas quando comparadas ao original em inglês. Trata-se de textos de teor ficcional que teriam atendido ao propósito instrutivo-recreativo dos periódicos, visto apresentarem narração entremeada à argumentação crítica sobre um dado assunto. Nesse sentido, este trabalho discute essas narrativas dentro de um contexto oitocentista de produção e recepção de ficção que circulou em periódicos.

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