Bíblia, história e ficção: a intertextualidade no terceiro capítulo de "A Relíquia" (Eça de Queirós)

Antonio Augusto Nery

Resumo

A Relíquia (1887) é a principal obra de Eça de Queirós na qual a crítica à instituição religiosa portuguesa, muito presente em diversos textos do escritor, constitui-se mais explícita. O terceiro capítulo do livro é uma espécie de canto paralelo no qual o protagonista/narrador Teodorico Raposo torna-se um evangelista, conforme ele mesmo se intitula, “São Teodorico,
Evangelista”, e, de forma irônica e satírica, narra a paixão de Cristo, recontando os últimos momentos de Jesus. O irreverente Teodorico emite suas opiniões nada convencionais sobre o contexto, as personagens e acontecimentos que antecedem a morte e crucificação de Cristo. Toda a narração é desenvolvida explicitamente a partir de uma paródia do texto bíblico e informações provenientes de várias exegeses laicas publicadas por historiadores durante o século XIX que fizeram muito sucesso por questionarem a Bíblia e as interpretações ortodoxas emitidas, até então, sobre ela. A desconstrução e a dessacralização dos evangelhos canônicos são claras e avultantes. Procuraremos neste trabalho, por intermédio da teoria bakhtiniana sobre a polifonia, o dialogismo e a paródia, demonstrar como Eça, apropriando-se da Bíblia e dos discursos de historiadores como Ernest Renan (1823-1892) e David Strauss (1808-1874), constrói um “novo” evangelho pautado em questionamentos de verdades e ideologias que para os seguidores do cristianismo são incontestáveis.

Palavras-chave

Intertextualidade; A relíquia; Eça de Queirós

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