USOS AMOROSOS NO FRANQUISMO OU UMA NOTA DE RODAPÉ NUM POEMA DE ÁNGEL GONZÁLEZ

Margareth Santos

Resumo

Em seu poema “Lecciones del buen amor”, Angel González, poeta espanhol da Geração de 1950, lança mão de um curioso recurso na matéria poética: depois de descrever um casal considerado como “exemplo” pelo franquismo, ou seja, católico, regrado no dizer e no fazer e, sobretudo, de amor modelar, o poeta insere uma nota de rodapé no poema e nela podemos ler as mazelas, o asco e o ódio recíproco do casal em questão. Essa articulação inusitada para um poema nos remete a um intenso diálogo intertextual que vai desde a obra que conecta com o título do poema do poeta ovetense, o El Libro del Buen Amor, do Arcipreste de Hita, em que o autor da Idade Média supostamente nos alerta sobre os malefícios do “louco amor”, passa pelo livro de Vicente Aleixandre, La destrucción o el amor, no qual convivem de forma pendular os sentimentos avassaladores e os edificantes e chega ao ensaio de Carmen Martín Gaite,  Usos amorosos en la posguerra, em que a autora traça um percurso pelos anos imediatos da pós-guerra civil espanhola a fim de retratar as relações amorosas sob o céu da ditadura franquista. A partir desse diálogo, composto sob o signo da ironia e da constatação de uma sociedade pautada pelas aparências e pela rigidez nas relações, pretende-se discutir como o poeta contrapõe diversos tipos e níveis de linguagem a fim de capturar e expor a hipocrisia latente e presente no trato amoroso e social nos anos da ditadura franquista. 

Palavras-chave

Ángel González, Poesia do pós-guerra civil espanhola, franquismo

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