Histórias entrelaçadas
olhares e caminhos em A cidade sitiada, de Clarice Lispector
DOI:
https://doi.org/10.48075/dsa1f507Resumo
A cidade sitiada, romance de Clarice Lispector, é um retrato factual e anímico, bem como temporal, histórico e geográfico, uma transfiguração literária dos anos em que a autora viveu na Suíça. Embora suas paisagens afeiçoem-se mais a sonhos ou pesadelos do que a uma descrição concreta do cenário encontrado pela escritora, a própria Clarice externou a importância de sua experiência empírica na concepção do romance. A narrativa, por sua vez, é exemplar ao mostrar como a história local – no caso, do fictício subúrbio de S. Geraldo – entrelaça-se com a história de seus habitantes, representados sobretudo pela protagonista Lucrécia, que, ao mesmo tempo que molda o entorno com seu olhar, é também moldada por ele. Neste artigo, lançamos mão tanto de textos da própria Clarice, a fim de iluminar os meandros do romance, como de postulações de teóricos como Michel Collot, autor que se debruça sobre a paisagem como fenômeno literário, entendendo-a como algo que “implica um sujeito que não reside mais em si mesmo, mas se abre ao fora. Ela dá argumentos para uma redefinição da subjetividade humana, não mais como substância autônoma, mas como relação”. Para além de suas qualidades estéticas, o romance de Clarice permanece atual à medida que nos leva a questionar se a história do suposto progresso técnico, feito de maneira impetuosa, harmoniza-se ou não com os anseios afetivos e, por que não, poéticos do ser humano.
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