Por dentro do corpo feminino: uma viagem ao passado

Mary Del Priori

Resumo


O objetivo, aqui, é tratar do desejo de “dizer” o corpo da mulher e mais especificamente de nomear o “sul” deste corpo: pequena história do baixo-ventre, de sua cartografia, de seus lugares de prazer e de dor, das imagens sobre a sexualidade feminina a partir de diferentes compartimentos do saber histórico. Os elementos para a história do imaginário sobre o corpo e dasformas de sua descrição encontram-se tanto na filosofia cristã, quanto no saber médico, que começa a se construir a partir do século XVII, em Portugal. Nesta época e em toda a Europa ocidental, a medicina e a Igreja uniam forças na luta para a constituição de um estado centralizado, baseado na privatização do eu e na apropriação privada dos meios de produção. Nesse estado, tanto o médico, que cuidava dos corpos, quanto o padre, que cuidava das almas, tinham acesso ao corpo feminino. Apoiados na escolástica consideravam-no uma abominável roupagem da alma, um perigoso território, um lugar de tentação, votado à putrefação, destinado aos vermes e excrementos. Para além destas imagens evocativas do pensamento cristão sobre o corpo, - imagens que habitam, aliás, suas constantes representações na Idade Moderna ibérica-, a noção cristã sobre a sexualidade e o uso dos prazeres limitava-se à retomada de algumas categorias familiares saídas da Antiguidade. Compreendia-se o “exterior” (foris), como invólucro capaz de manifestar ou trair o interior (intus), a alma. Mais além, a teologia insistia em reinterpretar a distinção corpo/alma através da dicotomia corpo mortal/ alma imortal.Havia uma dolorosa distinção entre esses dois polos: um, positivo, centrado na encarnação do único corpo que importava, aquele do Cristo, capaz de fazer pensar o físico como meio e lugar da salvação; e um polo negativo que definia ocorpo como matéria impura, vetor do pecado original, revelando-se, na sua contiguidade com a carne, marcado pela luxúria e pelo pecado. 

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ISSN: 1981-478X


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